História


Oiã – Terra de Oliveiras

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A Freguesia de Oiã não desfruta de um passado histórico ou heróico embora tenha ido à guerra da Restauração, em 1646, com uma companhia de soldados auxiliares “para benefício e alívio dos povos”, comandada pelo capitão Faustino Simões, o que não significa, forçosamente, que não se tenham havido com valentia. O seu título de nobreza vem-lhe naturalmente do facto de amanhar com suor a terra, ao longo dos séculos, e de surrar os tamancos pelos caminhos tortuosos e difíceis.
Efectivamente, os campos de Oiã sempre constituíram chão de abundância em cereais (trigo, arroz, cevada, aveia e centeio) e também em azeite.

Suporta esta ideia o que declarava em 1721 o cura que paroquiava Oiã e era nomeado pelo vigário de Espinhel: “Não há nesta Freguesia mosteiro algum nem casa de misericórdia nem hospitais (…) que não há memória de algumas prerrogativas que fossem concedidas (…) que não há sepultura alguma ou capelas em que nelas haja letreiros nem armas. Todas são lisas e sem letreiros”. Mas o cura José Manso Preto é mais completo quando afirma que “quanto ao oitavo interrogatório e último, não sei nem achei que nesta Freguesia houvesse nome algum insigne e nem de presente o há, porque todos os que há são uns pobres lavradores …”.

Embora o documento mais antigo que se lhe refere date de 1220, constando das Inquirições de D. Afonso II, onde aparecem citadas, com outra importância, terras como Sá, Aradas, Verdemilho, Eixo e Requeixo, Espinhel, Óis da Ribeira e Recardães. Oiã, (fim da página 13), até pela sua origem etimológica, pode situar-se séculos antes.

Reza assim o citado documento: “In paradella habet dominus rex XJ. casalia et faciunt forum sicut alij de oes preter quod dant V. alqueires de fogazas. Interrogati de hereditatibus ordinum dixerunt quod Loruano habet in Perrães e in Oyana Viij casalia”.

Quer dizer: O rei D. Afonso II tinha em Paradela onze casais que pagavam de foro a Óis da Ribeira nada menos de “cinco alqueires de fogaças”. Entretanto, inquiridos àcerca de herdades, eles disseram que o Mosteiro de Lorvão possuía em Perrães e Oiã oito casais. Logo aqui se nos afigura uma certa dependência de Oiã e Perrães relativamente a Paradela, que foi Freguesia, em tempos remotos, e que englobaria também o Lugar de Espinhel”.

Sem embargo de outra posição mais fundamentada, que desconhecemos, é de presumir, sem grandes riscos de erro, que o Lugar de Oiã terá sido povoado a partir das Agras. Isto é, no lugar das Agras se situaram as vilas que albergavam os donos das terras e seus trabalhadores.

A favor desta posição funcionam dois argumentos. Ou três. Agras é proveniente da palavra latina ager-agri, que significava campo. Portanto, campos eram as agras cultivadas, tal como Oiã, proveniente de olea. Por outro lado, no século XVI, ainda se encontra nos livros paroquias referência (que depois começou a escassear, acabando por desaparecer dos documentos e da boca dos vivos) ao sítio denominado de Villas Velhas, nas Agras. Do facto não se pode ter outro entendimento que não seja de que ali, naquele local, exactamente, existiram os primeiros casais, formando primitiva aldeia. Villas Velhas (no sentido de casais) se terá chamado, assim, mais tarde, em confronto com novos aglomerados populacionais, o que chegou ao século XVI, altura em que era habitada, por memória bem viva dos descendentes dos primeiros habitantes ou povoadores.

As Agras eram aldeia que mais próximo ficava da água, tão indispensável à vida das remotas gentes, no que se refere à alimentação. Os agregados populacionais constituíram-se normalmente perto do rio, do riacho ou outro tipo de lençol de água, que, no caso vertente de Oiã, (freguesia) a rodeava, a norte pela lagoa do Pano e, a nascente, parte pela Pateira de Fermentelos e parte pelo Rio Cértima, onde abundavam por entre nenúfares e bunho a mais diversa fauna piscícola e onde, depois, já no século XVIII, se estenderam ao sol de Abril a Setembro as praias de arroz, que, em muitos casos, sobrelevavam o rendimento da própria vinha. (Fim da página 14)

À volta de Oiã a começar pelo seu próprio nome, a toponímia é bem significativa e conduz-nos inevitavelmente ao tempo da romanização. Vejamos: Oiã (olea-azeitona); Agras, Costa do Agro, que, primeiro em latim e, depois, em português, falam de campos; o sítio do Castelo (castellum-castelli, significando fortificação mais pequena, em relação ao castrum, que era povoação fortemente fortificada); Villas Vellas, nome que restou dos primeiros casais. Chegados a este ponto, questionamos: há na sede da freguesia, com especial incidência nas Agras, o apelido Vilas, os Vilas, as Vilas. Não será o último vestígio das Villas Velhas, neste caso colocado à pele de quem é descendente dos que habitaram em remotos tempos aquela aldeia? Dos senhores ou dos caseiros? Ou Oiã não passará de um apelido que sobrou da passagem ou fixação dos frades ou colonos da Galiza, concretamente de Santa Maria de Oia, onde também não falta a árvore dos Vilas? O próprio lugar do Carril, que inicialmente queria dizer passagem estreita de carros, para não descermos a Perrães e Gesta – tudo indica a ocupação romana destas paragens, onde deixaram, pelo menos, uma coisa, com toda a certeza: o baptismo de alguns dos nossos sítios.

Quanto à origem do nome Oiã e porque não queremos figurar no número dos fantasiadores da toponímia, damos a palavra ao historiador A. de Almeida Fernandes, a quem pedimos opinião (que aliás vem confirmar a que tínhamos):

Oyana (Milenário de Aveiro, página 63) é um latinismo pois que – ana já não se pronunciava: logo Oyãa a forma real, orgânica.

Não se trata de topónimo antroponímico em – ana (Correlhã, Lourinhã, Campanhã, etc.) mas de um dos muitos derivados em – ana (>-ãa>-ã) de nomes comuns (como Torgã, Paçã, Montã, Arcã, Grelã, Fiã, Poçã, Soutã, Silvã, etc.), derivados de torga, paço, monte, arca, grelo, poço, souto, silva, etc, ou dos étimos ou formas de evolução destes.

Tal derivação não se circunscreve à antroponímica toponímica da romanização, contra o que de comum se alega, porque se encontra em todas as épocas – e até com nomes pessoais de origem germânica (Alvarã, Rebaldã, Gulfarã, etc. dos nomes pessoais dessa origem, Avarus, Rabaldus, Wulfarius, etc.) – (fim da página 15)

A meu ver, revela-se perfeitamente em Oiã a evolução de latim oleana, derivado do latim olea “azeite” (oleanasc.terra) sem podermos dizer em qual das frases se fixou o topónimo, foi este o processo evolutivo.

> Oiana > 1220 > Oiãa > Oiã
Latim Oleana > Oiana     > Oeãa > 1220 > Oiã > Oiã

A fonética é normalíssima e a síncope das suas consonantes, um fenómeno geral do latim para o Português; a ditongação Oe > Oi para desfazer o difícil hiato e a contracção crásica das sílabas finais. Fenómenos verdadeiramente irreprimíveis.

Aplicou-se, sendo assim, a uma área de villa (romana ou medieval) produtiva de azeite”.
A confirmar esta tese é que, embora a oliveira tenha vindo a desaparecer, é árvore, que se perfila ainda em muitas testadas de terra, como guardiãs postadas no horizonte de um tempo de glória. Os olivais ainda abundavam no início deste século. A mesma raiz olea se acha nas terras de Óis da Ribeira. Aliás, nos documentos antigos dizia-se: “Villa Oles cum ajuntionibus suis” (Portugalia Monumenta Historica) ou: “ad partem aquilonis cum villa Oles… ad partem solis ocasum Vilarinnum” (idem). Este Oles é proveniente do ablativo do plural de olea, que era Oleis. Depois, pela queda do e, formou-se Oes e Óis que, etimologicamente, que dizer o mesmo que Oiã – terra de oliveiras. Consideram ainda alguns estudiosos que os nomes de Oliveira do Bairro, Oliveira de Frades, por exemplo, são de formação posterior à de Óis e de Oiã: estas existiam já na baixa latinidade, ao passo que aquelas se formaram já na língua portuguesa e de Ulvaria.

É a opinião que se nos afigura mais consentânea com mais razões para a defendermos, a não ser que a palavra Oiã tenha sido transportada por frades ou outros da própria Galiza. Efectivamente, na diocese de Tuy, existe um município com o nome de Oiã e uma freguesia de invocação mariana, mais exatamente Santa Maria de Oia. A evolução etimológica da palavra Oia é a mesma de um e de outro lado do rio Minho. Por outro lado, pela carta topográfica do Município de Oia verificam-se algumas curiosas coincidências, como a existência de Facho, que é comum às duas povoações e ainda Preans, uma evolução etimológica diferente em relação a Perrães? Não serão coincidências a mais?

São exatamente os elementos ligados à sobrevivência dos nossos antepassados que constam dos motivos heráldicos do brasão de Oiã: por um lado, a oliveira, como raiz e fundamento do nome; por outro, o cereal, em representação dos restantes, e ainda o nenúfar, a enguia, sobrenadando na brisa das águas.

 

Armor Pires Mota, 1991

In Oiã Terras e Gentes, 1.ª Edição